29 | março

Liguadjá cuiabanês: o jeitinho cuiabano de falar carrega traços dos Bororos

“Óio de mamona no cabelo, cinturita, raspa subaco, óia no espeio, se apronta toda pra passear com o pau rodado.” Essa frase pertence a uma música do cantor Pescuma, cuja letra é do historiador Moises Martins; chamada “Tchupa Tchupa”, que estava presente na vida de muitos cuiabanos. Nessa música nós vemos uma das facetas mais marcantes do cuiabano: o linguajar.

O sotaque cuiabano, sem dúvidas, é uma marca registrada da população, estando enraizado na cultura. O “Cuiabanês” por completo, hoje em dia, é mais falado pelos mais velhos, ditos de “tchapa e cruz” (cuiabano raiz), pela população ribeirinha e é muito usado por artistas regionais no humor. Quem nunca ouviu dos pais ou dos avós que você estava “assuntando conversa de adulto”, quando você estava se intrometendo na conversa dos mais velhos?! Ou soltou um “ah, para de moage.”?!  Essas frases são tão comuns no nosso dia a dia que nem percebemos o quão são carregadas de regionalismo. Confira o dicionário elaborado pela prefeitura de Cuiabá.

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Produzida por mestres artesãos, a viola de cocho é símbolo da cultura cuiabana

Além de um linguajar forte também são marcantes as gírias da cidade, como: xômano, digoreste, ixpia ai, quê quê esse, moagem, entre outros. A maior parte dessas gírias não são somente faladas pelos mais velhos, como também permeiam a juventude. As que não são faladas integralmente foram modificadas para o modo de falar dos adolescentes, por exemplo, o “tchá mãe”, que é uma expressão usada para revidar a fala de alguém, foi transformado em “sua mãe”.

E você sabe o porquê de o falar cuiabano ser tão marcante? Vôte, como não? Deixa que a gente explique para você. O sotaque é único, pois há uma mistura entre o falar indígena e o europeu. Cuiabá era povoada pelos indígenas Bororos, principalmente na região da Prainha, onde os bandeirantes portugueses chegaram atraídos pelo ouro.

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Antiga peixaria flutuante, no Rio Cuiabá

É por causa desses portugueses que o cuiabano acrescenta o som das letras “d” e “j” em algumas palavras, como “cadju” e “tchuva”. Além disso, também há uma pequena influência da língua espanhola, presente na base do nosso linguajar, juntamente com o português de Portugal e o dialeto indígena.

Por todos esses motivos o linguajar cuiabano foi tombado como patrimônio imaterial do Estado, em 2013, pela Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso. Com isso, o dialeto é oficialmente protegido pelo poder público do risco de desaparecer.

Apesar de estar se misturando com o linguajar de outros estados, muito em consequência do sotaque que se escuta nas tevês e nas mídias sociais, o falar cuiabano prevalece e continua sendo motivo de orgulho para ribeirinhos e cuiabanos de “tchapa e cruz”, principalmente com a chegada dos 300 anos de Cuiabá, no próximo dia 08 de abril.

Em homenagem ao aniversário de Cuiabá, a Vanguard promove até 10 de abril uma exposição fotográfica em sua Central de Apartamentos Decorados. Para saber mais, clique aqui.

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Texto: Larissa Klein | Assessora de Imprensa Vanguard

Fotos: Wander Lima